HOMEM E MULHER OS CRIOU

José Maurício Guimarães




Estou sem dormir por causa de uma questão gramatical. Por que o plural sempre exalta a posição de gênero masculino? Mesmo que haja 40 alunas numa sala de aula e um só marmanjo, a gramática pede que digamos "os alunos". E, por incrível que pareça, tal determinação é da Sra. Dona Gramática e não do Sr. Gramático.



Ainda nesta questão sexual: o pronome "você" é vocábulo masculino, feminino ou comum-de-dois? Se for masculino, temos que agir rápido! – incluir no Aurélio o você macho e o voçâ fêmea. O sexo das palavras precede ao sexo dos anjos. Imagino a áspera empreitada que haveríamos de enfrentar para, além de evocar as Hierarquias Celestiais, equilibrar os desníveis léxicos da última flor do Lácio. Antigamente – especialmente nos regimes autoritários - concordávamos com tudo em gênero, número, grau e pessoa (principalmetne pessoa, pois sempre sabíamos "com quem estávamos falando"). Hoje, só em número e grau. Num futuro próximo, só em gênero – e num futuro distante não haverá mais concordância alguma. In extremis, será necessário convocarmos um plebiscito- ou melhor, dois plebiscitos: uma plebiscitA só para auscultar os corações femininos e um plebiscitO, em separado, para sondarmos as trevas do pensamento machista que cheira a suor, testosterona, tem músculos retesados no cérebro, palavrões disfarçados... coisas de garanhões infrenes.



Urge separar o que Deus uniu. Antigamente, nas igrejas do interior, praticava-se essa desagregação: homens de um lado, mulheres de outro. Deus ouvia, ora uns, ora outras; nunca os dois lados ao mesmo tempo - prova de que o Criador preza pelos esquerdos humanos e direitas humanas.



– Foi assim no paraíso terrestre, alegavam os piedosos curas – Deus falou separadamente com Adão, macho da espécie. Depois com Eva, a mulher. E finalmente com a Serpente - sabe-se lá se esse bicho rastejante era homem ou mulher. Difícil identificar o sexo das cobras, pegar nelas prá verificar, nem pensar!



Mediante essa homilia (e nem por isso) os rústicos aldeões não deixavam de flertar com as mimosas camponesas sempre que o celebrante virava de costas para incensar o altar. "Crescei e multiplicai-vos!", pensavam lá consigo – pois este era o único versículo bíblico que conheciam de cor e praticavam by heart.



Detesto essas cartas e circulares que, mal-educadas, começam assim:



- Prezado(a) Senhor(a).



Ora essa, a que tipo de andrógino alquímico esses escribas se dirigem? Guardadas as devidas proporções, devo estar contrariando o douto Tomás de Aquino quando atribuo gênero ao Ente Supremo/Superma. Na reforma do texto e do contexto, sei que abuso da palavra Criador. Pode também ter sido uma CriadorA – o que, em minha imperdoável laicidade, julgo ser mais plausível. Alguns teólogos do hemisfério norte (todos eles homens!) têm optado pela fórmula father-mother-god que agrada aos adeptos dos ritos célticos. Para Harold Bloom ("Livor de J") secundado por nosso Moacyr Scliar, deve ter sido uma mulher que escreveu a Bíblia. Um homem, com todos os encargos das guerras sobre os ombros, disputas de poder e preocupações com o serralho, teria escrito, no máximo, um pífio bíblio. Só a fina percepção de uma mulher, seus sentimentos valorativos, seu raciocínio sereno e natural misticismo poderiam ter dado à luz às santas e inefáveis verdades das Sagradas Escrituras judaico-cristãs.



No idioma que falamos e escrevemos (deveria ser "a idioma") topamos com brutalidade tais e descriminações patriarcais insuportáveis onde os sexos frágeis são sempre vítimas: veja o Diadorim do Grande Sertão, lutando ao lado de Jóca Ramiro e Riobaldo, oscilando entre as incertezas do Zé Bebelo e o corpo-fechado do Hermogenes; tudo isso sem que o jaguncismo suspeitasse da graça feminil sonegada sob o desabrido gibão sertanejo. Veredas têm dessas coisas... Pão e pães são questão de opiniães, no dizer de Guimarães Rosa. Diante de tudo isso, acabo me convencendo de que devemos reeducar a vida através da linguagem. O pólo magnético da Terra está mudando, dizem. Nada mais consentâneo que alterarmos as funções de variáveis complexas adaptando a vida à linguagem, o prego ao martelo. As academias de letras, o governo, as igrejas, os fiscais de trânsito e os vendedores de arenque devem consultar "os" e "as" que pagam impostos (nesse caso, imposto fica no masculino mesmo, porque procede da parte do leão! salário também, posto que é imexível...) Apenas uma dúvida: os tais plebiscito/plebiscita teriam que ser convocados/convocadas por governOs ou pelas governAs?, pelos congressOs ou pelas congressAs?, pelos senados ou pelas senadAs? Esta discussão não leva a nada, dirão. Mas nos conduziria, a priori, à controvertida questão da PresidentA que alguns trogloditas insistem em chamar de PresidentE. A Academia Brasileira de Letras já bateu a martela: é presidentA; mas pode ser presidentE também... vai do gosto. Concordo e vou além: nas outras funções e profissões, o gênero deveria reverenciar as mulheres e o pequeno-grande detalhe que as separa do comum dOs criaturOs. Que saibamos diferençar estudante/estudanta, gerente/gerenta, elegante/eleganta, assaltante/asslatanta, mendicante/mendicanta, assistente/assistanta, ciente/cienta, regente/regenta, etc...



Na imensa e diversificada flora brasileira, as frutas: abacate, abacaxi, cajá, caju, caqui, coco, jenipapo, mamão, maracujá, melão, morango, pequi, pêssego e tamarindo são masculinos enquanto que a acerola, ameixa, amora, banana, carambola, cereja, goiaba, graviola, jabuticaba, jaca, laranja, maçã, manga, pêra, pitanga, romã e uva são palavras no gênero feminino. O número é mais ou menos equilibrado nesta amostra onde o feminino tem ligeira predominância. Se considerarmos que o idioma pátrio reúne todas essas delícias na palavra feminina fruta, forço é mudarmos os nomes machistas das demais para abacatA, caquiA, côcA, jenipapA, mamanA, melÃ, morangA, pequiA e pêssegA. Na mesma esteira de raciocínio, os populares feijão e arroz seriam alimentAS feijanA e arrozA. Pois o mar é feminino "La mer" em francês e a lua masculino Der Mond em alemão, tudo numa boa... Partindo disso, por que "o gado" se temos machos e fêmeas nos currais? Por que "as aves" se, indiferentes à nossa linguagem, os alados povoam os céus e defecam impunemente sobre nossas cabeças?Por que "a televisão", "a editora", "a universidade", "a platéia" se no coletivo, nos meios de comunicação e instrução habitam homens e mulheres? Temos que mudar isso mediante plebiscita/plebiscito; ou por sorteio, um sim outro não, bem-me-quer, mal-me-quer... e, talvez resultaria disso novos editoros, um novo universidado e requintados plateios. Em compensação, teríamos violinas nos orquestros, gravatos nas pescoças, fumaríamos cachimbas e leríamos livras nos blibliotecos. "Pau que bate em Chico – diz o ditado – bate em francisco. E esse ditado eu não ouso passar para o feminino, pois em Chicas e Franciscas não se bate nem com uma flor.



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