Perda de objetivo e incompetência
As instituições são - pelo seu caráter social, educacional, religioso, filantrópico, etc. – estruturas criadas ou herdadas da tradição a partir de necessidades sociais básicas. De acordo com Abraham Maslow, são necessidades aquelas consideradas fisiológicas (comida, água...), as que visam a segurança (emprego, moradia, saúde, propriedade...), as de estima, amizade (confiança e respeito mútuo) e de realização pessoal. Todos conhecem a pirâmide de Maslow (ensinada nos Estados Unidos) e as de Kephrem, Kéops e Mikayrinos que são ruínas no Egito. O que desejamos para nossas instituições: que permaneçam vivas ou que sejam sepultadas em sarcófagos lindamente decorados? É tudo uma questão de alvo.
As instituições permanecem íntegras e identificáveis mediante três aspectos: 1) a manutenção de seus objetivos; 2) continuidade e a constância de seus códigos de conduta; 3) sua eficiência.
- A definição dos objetivos é o alicerce das instituições. Se criarmos uma biblioteca e, com o passar do tempo, a estrutura física e administrativa da mesma voltar-se para a venda e distribuição de gêneros alimentícios, não teremos mais uma biblioteca, mas um supermercado. As pessoas interessadas em pesquisar a Encyclopaedia Britannica não voltariam mais àquele local que, de agora em diante, atrai um público diferente - consumidores de salsichas e comedores de barras de chocolate; venderão sabão em pó, ração para cachorro, papel higiênico e outros que tais. Os balconistas, embora ataviados como livreiros, estarão vendendo toucinho e vassouras. O mesmo aconteceria se as pistas de um aeroporto fossem entregues às corridas de carros, manobras cavalo-de-pau e test drive. Toda a ordem instituída ali teria que se adaptar a esses novos objetivos, haveria uma transformação para outra coisa. O pouso e a decolagem de aviões ficariam impossíveis e, na melhor das hipóteses, a atividade aeroportuária seria prejudicada expondo pessoas e equipamentos a altos e desnecessários riscos.
Os objetivos de uma instituição estão inscritos numa constituição, reiterados nos estatutos e regimentos. Lei é o que não falta num país cartorial como o nosso. Desde as convenções de condomínios residenciais até às constituições dos estado, existem documentos escritos (autênticas cartas magnas) especificando claramente os objetivos daquela associação de pessoas. A Constituição da República Federativa do Brasil, por exemplo, define no artigo terceiro: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação"... Portanto, quem quiser conferir até que ponto nossas instituições e organizações permanecem fiéis às finalidades e objetivos para os quais foram criadas, que CONSULTE O TEXTO BÁSICO NAS QUAIS ELAS SE SUSTENTAM, pode ser um repertório de disposições que faz lei entre as partes ou uma carta-documento firmada pelo idealizador da instituição contendo os ideais e as sublimes concepções de um verdadeiro líder.
- Para o segundo aspecto (a continuidade e constância dos códigos de conduta) imaginemos outro exemplo, uma história fictícia: os administradores de uma pequena cidade da antiga Roma decidiram dar proteção aos bandidos e perseguir as pessoas de bem (qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência). Em pouco tempo essa cidade transformou-se noutra coisa – num covil de arruaceiros, num abrigo de facções criminosas. Assim, a cidade não pôde mais ser considerada ou tratada como municipium que, entre os antigos romanos, era um elevado grau atribuído às comunidades. Neste segundo exemplo, a avaliação veio de cima e através do rigoroso crivo da Ética e da Moral. E a falsa cidade foi atacada e destruída pelo exército de Roma.
- O terceiro aspecto é o da eficiência. Até agora abordei exemplos exagerados e óbvios, como o da biblioteca transformada em mercado, o aeroporto em pista de corrida e a parábola da cidade que virou antro de criminosos. Já o terceiro aspecto - a questão da eficiência - é imponderável, impalpável. Precisamos ficar atentos. Os desvios que afetam a eficácia de uma instituição são sutis, imperceptíveis e disfarçados. No entanto, são o veneno que adoece e mata de vez uma instituição. Uma repartição pode manter todos os aspectos formais e mesmo fazer crer que se conduz em direção aos objetivos para os quais foi criada; pode até mesmo desenvolver seus trabalhos em acordo (ainda que frágil) com os códigos de conduta de determinada atividade ou profissão. Seria uma instituição meio justa e meio perfeita - por isso mesmo imperfeita e desajustada. (Normalmente os piores inimigos de uma organização não estão do lado de fora, mas DENTRO da própria organização.) No exemplo citado, a desconexão com o interesse fundamental, a incoerência dos resultados com as propostas e as contradições entre a forma e o ato fariam dessa repartição uma autêntica inutilidade: documentos que permanecem meses ou anos nas gavetas à espera de um despacho, prazos perdidos, editais não analisados, funcionários desatualizados, assessores desqualificados, etc.
Todos esses casos (exagerados, reconheço) talvez sirvam para ilustrar meu raciocíno e ajudar na leitura das entrelinhas. O resultado final da perda do objetivo é uma mudança de forma ou de estrutura - análoga à que ocorre na vida de certos insetos e batráquios. Com uma diferença a favor dos bichos: insetos e batráquios passam pela metamorfose evolutiva e se adaptam à luta pela vida. Nas instituições, pelo contrário: a "borboleta" regride para lagarta e depois para larva; os "sapos" voltam a ser girinos debatendo-se nas poças lamacentas.
Não pensem que a passagem de uma forma para outra, nas instituições, aconteça automaticamente ou que faça parte do processo histórico. Não. O processo histórico faz as instituições evoluírem e se adaptarem, mas não transformam livros em salsichas. Nem existe transformação automática sem o concurso do elemento humano. Sapos permanecem sapos; borboletas permanecem borboletas.
Outros poderão questionar se essas transformações são provocadas de modo consciente pelas pessoas (de caso pensado), de modo inconsciente ou por ignorância. Nenhum desses casos. Penso que são ocasionadas pela INCOMPETÊNCIA, isto sim. Incompetência de um lado e indiferença de outro. Enquanto a incompetência é uma estupidez audaciosa, a indiferença é a inaptidão acanhada. A incompetência (falta dos conhecimentos necessários para o julgamento de alguma coisa) fica a cargo dos que dirigem as instituições; a indiferença é a "des-contribuição" por parte de quem deveria estar participando, uma vez que são os mantenedores da instituição ou organização. Noutras palavras: é a passividade de quem assiste ao desmoronamento e morte das instituições sem questionar e sem apresentar soluções para a adaptação e evolução das organizações. Concorrem para essa passividade o medo, o comodismo, a falta de estudo, as trocas de favores (benesses distribuídas à guisa de cale-a-boca), a ambição, a vaidade e todos os vícios capitais enumerados pelo bom e velho catecismo: em ordem analfabética, preguiça, orgulho, luxúria, ira, inveja, gula e avareza.
Isto posto, podemos concluir que o inferno existe de fato (e de direito).
As instituições permanecem íntegras e identificáveis mediante três aspectos: 1) a manutenção de seus objetivos; 2) continuidade e a constância de seus códigos de conduta; 3) sua eficiência.
- A definição dos objetivos é o alicerce das instituições. Se criarmos uma biblioteca e, com o passar do tempo, a estrutura física e administrativa da mesma voltar-se para a venda e distribuição de gêneros alimentícios, não teremos mais uma biblioteca, mas um supermercado. As pessoas interessadas em pesquisar a Encyclopaedia Britannica não voltariam mais àquele local que, de agora em diante, atrai um público diferente - consumidores de salsichas e comedores de barras de chocolate; venderão sabão em pó, ração para cachorro, papel higiênico e outros que tais. Os balconistas, embora ataviados como livreiros, estarão vendendo toucinho e vassouras. O mesmo aconteceria se as pistas de um aeroporto fossem entregues às corridas de carros, manobras cavalo-de-pau e test drive. Toda a ordem instituída ali teria que se adaptar a esses novos objetivos, haveria uma transformação para outra coisa. O pouso e a decolagem de aviões ficariam impossíveis e, na melhor das hipóteses, a atividade aeroportuária seria prejudicada expondo pessoas e equipamentos a altos e desnecessários riscos.
Os objetivos de uma instituição estão inscritos numa constituição, reiterados nos estatutos e regimentos. Lei é o que não falta num país cartorial como o nosso. Desde as convenções de condomínios residenciais até às constituições dos estado, existem documentos escritos (autênticas cartas magnas) especificando claramente os objetivos daquela associação de pessoas. A Constituição da República Federativa do Brasil, por exemplo, define no artigo terceiro: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação"... Portanto, quem quiser conferir até que ponto nossas instituições e organizações permanecem fiéis às finalidades e objetivos para os quais foram criadas, que CONSULTE O TEXTO BÁSICO NAS QUAIS ELAS SE SUSTENTAM, pode ser um repertório de disposições que faz lei entre as partes ou uma carta-documento firmada pelo idealizador da instituição contendo os ideais e as sublimes concepções de um verdadeiro líder.
- Para o segundo aspecto (a continuidade e constância dos códigos de conduta) imaginemos outro exemplo, uma história fictícia: os administradores de uma pequena cidade da antiga Roma decidiram dar proteção aos bandidos e perseguir as pessoas de bem (qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência). Em pouco tempo essa cidade transformou-se noutra coisa – num covil de arruaceiros, num abrigo de facções criminosas. Assim, a cidade não pôde mais ser considerada ou tratada como municipium que, entre os antigos romanos, era um elevado grau atribuído às comunidades. Neste segundo exemplo, a avaliação veio de cima e através do rigoroso crivo da Ética e da Moral. E a falsa cidade foi atacada e destruída pelo exército de Roma.
- O terceiro aspecto é o da eficiência. Até agora abordei exemplos exagerados e óbvios, como o da biblioteca transformada em mercado, o aeroporto em pista de corrida e a parábola da cidade que virou antro de criminosos. Já o terceiro aspecto - a questão da eficiência - é imponderável, impalpável. Precisamos ficar atentos. Os desvios que afetam a eficácia de uma instituição são sutis, imperceptíveis e disfarçados. No entanto, são o veneno que adoece e mata de vez uma instituição. Uma repartição pode manter todos os aspectos formais e mesmo fazer crer que se conduz em direção aos objetivos para os quais foi criada; pode até mesmo desenvolver seus trabalhos em acordo (ainda que frágil) com os códigos de conduta de determinada atividade ou profissão. Seria uma instituição meio justa e meio perfeita - por isso mesmo imperfeita e desajustada. (Normalmente os piores inimigos de uma organização não estão do lado de fora, mas DENTRO da própria organização.) No exemplo citado, a desconexão com o interesse fundamental, a incoerência dos resultados com as propostas e as contradições entre a forma e o ato fariam dessa repartição uma autêntica inutilidade: documentos que permanecem meses ou anos nas gavetas à espera de um despacho, prazos perdidos, editais não analisados, funcionários desatualizados, assessores desqualificados, etc.
Todos esses casos (exagerados, reconheço) talvez sirvam para ilustrar meu raciocíno e ajudar na leitura das entrelinhas. O resultado final da perda do objetivo é uma mudança de forma ou de estrutura - análoga à que ocorre na vida de certos insetos e batráquios. Com uma diferença a favor dos bichos: insetos e batráquios passam pela metamorfose evolutiva e se adaptam à luta pela vida. Nas instituições, pelo contrário: a "borboleta" regride para lagarta e depois para larva; os "sapos" voltam a ser girinos debatendo-se nas poças lamacentas.
Não pensem que a passagem de uma forma para outra, nas instituições, aconteça automaticamente ou que faça parte do processo histórico. Não. O processo histórico faz as instituições evoluírem e se adaptarem, mas não transformam livros em salsichas. Nem existe transformação automática sem o concurso do elemento humano. Sapos permanecem sapos; borboletas permanecem borboletas.
Outros poderão questionar se essas transformações são provocadas de modo consciente pelas pessoas (de caso pensado), de modo inconsciente ou por ignorância. Nenhum desses casos. Penso que são ocasionadas pela INCOMPETÊNCIA, isto sim. Incompetência de um lado e indiferença de outro. Enquanto a incompetência é uma estupidez audaciosa, a indiferença é a inaptidão acanhada. A incompetência (falta dos conhecimentos necessários para o julgamento de alguma coisa) fica a cargo dos que dirigem as instituições; a indiferença é a "des-contribuição" por parte de quem deveria estar participando, uma vez que são os mantenedores da instituição ou organização. Noutras palavras: é a passividade de quem assiste ao desmoronamento e morte das instituições sem questionar e sem apresentar soluções para a adaptação e evolução das organizações. Concorrem para essa passividade o medo, o comodismo, a falta de estudo, as trocas de favores (benesses distribuídas à guisa de cale-a-boca), a ambição, a vaidade e todos os vícios capitais enumerados pelo bom e velho catecismo: em ordem analfabética, preguiça, orgulho, luxúria, ira, inveja, gula e avareza.
Isto posto, podemos concluir que o inferno existe de fato (e de direito).
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