Incultura
A incultura para todos é uma conquista neo-capitalista difícil de contornar. Modo contemporâneo de galgar e manter o poder, leiloando-o entre cúmplices e aliados, a incultura é o eixo do poder político. Fábrica de adesão, ela se compraz em afirmar: somos grandes, pois, massa, povo; trabalhadores, cientistas, intelectuais, artísticas, jornalistas e agentes culturais estão de joelhos diante do despotismo esclarecido, “legitimado pelas urnas”. Amém!
Raramente, na história recente, o Brasil conheceu uma classe política tão inculta, e tão sabida à gestão da incultura como meio de “enriquecimento sem causa”, mediado por licitações faraônicas, em conformidade com a lei vigente. Ora, a falta de lei não gerou o nazismo, mas, antes o excesso, a ausência radical de instituições autônomas para interpretar e aplicar as leis.
A cultura não mais aparece como dispositivo intercessor ao combate à incultura, novo terrorismo sem bomba nem arma, porém, com pressões que deságuam numa ditadura velada, e violência simbólica desenfreada. O assédio moral é, no caso, a arma mortífera da incultura.
A cultura não tem mais sua força clínica: auxiliar os seres a suportar e a agir, quando confrontados aos sofrimentos. Já a incultura tem uma estratégia para impor às comunidades um modelo único, e que todos devem acatar, sob pena de perder o trem da felicidade pacotilha! Frango com hormônio, e bunda’s music para todos no Aterro!
A incultura é uma fábrica para construir alegria e felicidade, através da teologia do ventre, da promessa de bens materiais e coito à luz do dia. Impostura ou neofascismo suave, a incultura é uma prostituta respeitosa. Com seus michês e gigolôs, pagos para anestesiar o desejo da multidão, e impor o prazer líquido, sem educação ou ética dos afetos, a incultura é o falso perverso que nos réveillons ou fortais da vida pode instigar a cidade à prática da violência e uso capitalizado de drogas.
Marcuse afirma algo pertinente: em breve, não podemos mais criticar o capitalismo, pois, não temos palavras para designá-lo. Trinta anos depois, o capitalismo se chama desenvolvimento, a dominação partenariado, a exploração gestão de recursos humanos, e a alienação se chama projeto. Neste quadro, a palavra torna-se o túmulo do pensamento.
Algo lembra o Ministério da Incultura, de G. Orwell, 1984. É de notar, a inútil presença de um ministro, ou secretário de Cultura – e o caso cearense não é isolado, um secretário para nada, remunerado para ficar imperceptível. No caso, o secretário é o governador. Criador! Ora, a palavra criação é do registro religioso. Não há criação em biologia.
A agenda “cultural” das festas de fim de ano ilustra um poder que deseja manter o simulacro cultural, salvo exceção, sob o estigma: “Há gosto para tudo”, prática desviada de racismo de casta.
A incultura é o campeã do sono do pensamento. Meio à decadência, aqui e ali, linhas de fugas emergem. Nem tudo está perdido.
Daniel Lins
dlins2007@yahoo.com.br
Filósofo
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