21 anos atrás com Belchior, dias passam rápidos!
Passada a Bienal do Livro de tantos encontros, descobertas e frissons em uma cidade que enfrentava simultaneamente o incendiar de ônibus tivemos o evento MALOCA que comemorou os 18 anos do CDMAC de todos nós.
De 27 à 30 de Abril, exatamente passados 12 dias do evento literário.
Eis que no ultimo dia de evento nos chega a noticia da passagem de Belchior....uma dor na cabeça me ocupa durante todo o dia e me inscrevo para participar em sua homenagem já instantaneamente incorporada pelo evento do Dragão....preciso de tempo para ir e voltar nas memórias.
RETROVISOR:
Em 1996 conheci Belchior por telefone em São Paulo onde me hospedei na casa de amigos irmãos Aila e Valentim (anjos). Fui até lá executar o projeto de CD MATIZ (primeiro projeto de áudio aprovado pela Lei Jereissati de Incentivo à Cultura e primeiro Projeto de àudio da Via de Comunicação de Rachel e Maru). Tivemos o apoio 100% da Teleceará, que também apoiou a construção do CDMAC. Esse trabalho teve a direção e Arranjos de Sérgio Sá e foi conduzido pelas mãos do sereno Peter Racci; engenheiro de som brasileiro, mas com cara de gringo danado!!! rsrs...
calmo, cordato e competente profissional.
calmo, cordato e competente profissional.
O motivo de minha ligação à Belchior foi por ter sabido de seu interesse em ter distribuído meu primeiro trabalho, o CD Digital de dois anos antes, 1994. Como obtive o telefone dele eu já não sei, não lembro!
Ele me atendeu pessoalmente (lembrando que naquele tempo não existia telefonia móvel) com sua tradicional elegância e gentileza me perguntando sobre o que eu faria lá, se meu repertório estava fechado e me ofereceu suas canções....Isso mesmo, as canções foram oferecidas e selecionadas comigo, lembro que falei ao telefone que gostava muito de uma que falava sobre um blusão (era a coração selvagem) ele sorriu e autorizou verbalmente na hora e ficou de me levar uma fita K7 com outras sugestões de músicas suas....
O estúdio "Concord" que ficava em Moema e lá faríamos nosso trabalho, era do engenheiro de som Santiago, aquele que trabalhava com Tim Maia, e tivemos pelo decorrer dos dias que já nem lembro quantos foram, a presença de músicos de peso como Oswaldinho do Acordeon, Paulinho Ferreira, Proveta, entre outros mais, sob a regência de Sérgio Sá.
Belchior foi nos visitar logo nos primeiros dias em que colocava voz. Adotei com Sérgio a dinâmica de ir aprovando de Fortaleza os arranjos que ele me mandava pelo correio em fitas k7 e assim eu já chegava com a interpretação encaminhada....
Em um dos dias saimos no finalzinho da tarde e ele me levou para conhecer seu ateliê que era ali do lado, mas fez questão de ir de carro...Uma casa de esquina, muro meio alto, um portão de madeira estreito que ao abrir apresentava uma pequena varanda sem nada de moveis e adornos porém lá dentro quadros nas paredes e chão. Conversamos sobre projetos, na verdade eu mais ouvi do que falei além do que o vinho já com pouco me deixara tonto pelo ritmo puxado e sem se alimentar no estúdio...Penso que tenha buscado um taxi num ponto que havia bem lá perto logo atrás e tenha ido rumo ao Sumarezinho conviver um pouco com meus anfitriôes, brincar com suas cadelas gasguitas, aguar plantas e dirigir um pouco em Sampa pra eles.
Na casa de Valentim tudo era alegria, risadas e de repente uma lembrança e um choro, mas logo retomava-se as piadas e o convívio era sempre iluminado...
Finalizada minha etapa de colocação de todas as vozes em todas as canções inclusive nas que foram escolhidas por Belchior comigo voltei para minha terra com uma idéia de que um grande projeto poderia estar em andamento e que eu estava imerso nele com aqueles caras famosos todos...
O disco não demorou à ser mixado e masterizado na cia dos técnicos que foi onde Belchior escolheu levá-lo, à partir da finalização da etapa de mixagem a masterização e o futuro seriam com ele.
Em Fortaleza fui dar conta da capa e conferir as informações sobre letras, autores, técnicos, registros, fotografias por Marize Rangel(SP) e Ricardo Damito(CE). A criação fora executada pela Advance Comunicação de propriedade de Eliziane Colares e seu marido e a supervisão de minha capa ficara por Paulo Amoreira.
Tudo resolvido e concluido enviei a midia para São Paulo e o resto foi por Belchior e sua empresa a Cameratti (Santo André)
PAUSA PARA PROXIMOS CAPITULOS:
Fui convidado por minha amiga irmã Karla Karenina para ajudá-la tecnicamente na produção de seu primeio CD Jóia de Jade, o que foi um prazer e uma honra pra mim. Moramos juntos por alguns meses em um momento muito produtivo de minha vida e eu me sentia merecedor de cada coisa daquelas.
Fomos ao Rio de Janeiro em 97 e ficamos hospedados durante uma semana aproximadamente no Hotel Barra Verde, na Barra da Tijuca. Esse hotel ficava colado à Polygran e também ao estúdio GPA de Gutti de Carvalho que produziu um monte de gente inclusive Elis Regina...
Trabalhava com Guti nosso conterrâneo musico e produtor Ricardo Bacelar...Logo na segunda noite de nossa chegada ao Rio Belchior chega me trazendo uma caixa com 25 unidades do meu filho...o Cd Matiz....rimos, brincamos e fomos comemorar no Barra Grill o projeto de Karla e o meu CD.
Dias depois e minha função já ter se exaurido voltei para Fortaleza com meu "filho" no braço...uma sensação de estranhamento e curiosidade sobre a aprovação das primeiras pessoas.
Em Fortaleza fui degustando as canções e a qualidade técnica de cada áudio e fiquei impressionado com tudo...o disco estava comercial e com conteúdo, dai fui rememorar a construção daquele repertório de Fátima Guedes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Belchior, Sergio Sá e Davi Duarte.
As rádio receberam bem, sem muito entusiasmo, somente a Universitária FM como rádio educativa e nossa casa de apoio institucional nos abraçou como sempre. Fora ela a Calypso FM (hoje Mucuripe FM 106.5)...
Os meses foram passando e a minha tiragem não chegava, pressentí que algo de errado estava acontecendo, o contrato que me chegou vindo da Cameratti (selo de distribuição) não trazia os termos que ajustamos então eu não assinei...nunca assinaria o que não acordei previamente. O contrato era a formalização de nossa relação, mas atribuia direitos de propriedade dos fonogramas à empresa e eles eram meus, pagos com os recursos do edital que eu vencera por meus esforços....
Uma série de situações mal resolvidas se sucederam..e eu inicio nesse momento uma fase que resisto em descrever... resisto muito!!!
Até que recebesse uma quantidade inicial e razoável de unidades do disco de titulo Matiz (em homenagem à composição de Davi Duarte) me sobrevieram muitos sentimentos negativos e para os quais não obtinha apaziguamento de ninguém da empresa, ninguém me atendia e os que atendiam não sabiam do que se tratava. Ednardo Nunes, sócio de Belchior era o responsável pelos contratos e como não estivera conosco nas resoluções pessoais resistia em alterar qualquer cláusula de um contrato pré estabelecido e com natureza de adesão....Dor de cabeça e decepção...até entrar em depressão.
Certo dia toca o telefone e era Belchior, quem atendeu foi minha mãe que resistiu em me passar o telefone....enfim...era uma boa notícia...Bel me convidara para participar do lançamento de seu CD Vício Elegante, para isso eu iria à Sampa e me hospedaria no Lorena Flat e participaria das três noites de shows. Em cada uma delas outros convidados estavam presentes; Rubens Curim, Trovadores Urbanos e Vânia Bastos.
Foram dias intensos e cheios de boas vibrações, me mantive na cia de minha amiga Madalena Marmo e saimos muito juntos, ela me acompanhou à tudo inclusive ao jantar numa cantina no Bexiga depois do ultimo dia de show.
Sobre todas as incumbências referentes ao CD Matiz a energia fraquejou..e nada mais foi conduzido e em paralelo à isso a gravadora inciava um processo de falência, com isso, trabalhos de diversos artistas foram abandonados em suas divulgações e distribuições sob a total falta de comunicação de qualquer representante da empresa. Para mim, meu "protetor" era Belchior logicamente e ele largou tudo sem aviso, sem justificativa, sem apelo...
Fui à São Paulo, tinha que ir atrás de receber meu master e resolver a situação, levei algumas unidades do disco e na rádio "American Sat" fiz divulgações em diversos programas de rádio AM.
Me receberam entre outros Cristina Rocha e Leão Lobo com imensa curiosidade e um papo longo e afetuoso....demos carona à Leão Lobo ao final de nossa entrevista...tudo maravilhoso nesse momento, só que não!
Ao chegar à sede da Cameratti em Santo André e um tempo muito chuvoso me deparei com uma empresa largada....quase abandonada, quase nenhum funcionário, ninguém sabia de nada e nem me recebeu ou entregou meu master... Desespero bateu e comecei uma procura imbatível à Belchior telefonando para todos os números aos quais tive acesso e um deles ele atendeu, liguei de um orelhão em São Caetano e sem muito assunto ele me falou que estava saindo para viajar e não embro oq eu disse sobre nossa relação profissional...mas o que aconteceu depois foi pior. Saimos de São Caetano, eu Madá e Moacir com um sentimento muito triste....Descemos no escritório de Mada em uma das ruas que transversam a Avenida Paulista, na esquina quando iríamos atravessar quem encontramos? Belchior e Ednardo Nunes indo à uma entrevista na TV Gazeta...
Nessa noite tive uma crise nervosa na quitinete que alugamos na rua Martins Fontes, deitei no chão e tremia tanto que meu corpo perdia o contato com o piso....Oswanil, nosso saudoso amigo espirita, orou muito pelo sofrimento que se manifestava naquela minha reação.
Não lembro o que se passou nos dias seguintes, mas voltamos à Fortaleza e enfrentei dias de fúria de amigos que passaram pelo mesmo drama e desejavam uma explicação e um ressarcimento por seus prejuízos e etc...Eu engoli minha tristeza...e uma série de situações negativas aconteceram em minha vida pessoal que abalaram minha saúde, Adoeci...minha relação acabou...em minha familia problemas de saúde se manifestaram e se tornaram complexos...Efeito dominó!!!
Eu não quis mais ouvir falar no disco, neguei por muito tempo....e passei 11 anos sem gravar mais nada.
Me tornei praieiro como fora na adolescência, conheci um monte de gente da night, gente do dia, gente de cá, de lá e no auge da solteirice fui me sentindo fortalecer e algumas mudanças de práticas foram fundamentais como retomar minha vida de atleta, voltei à academia e durante mais de uma ano treinei todos os dias e fiquei enorme de forte. Estar fisicamente forte induz à atitudes mais acertivas e à pesar-se fortalecido. Minha auto estima estava retomada...e fui me preparando para mostrar o que mudara dentro por dentro também.
Quando as luzes de esperança na vida profissional começaram à ressurgir me vi novamente curioso sobre a musica brasileira de conteúdo e sem misoginias montei o show MARCUS MÚSICA BRASILEIRA BRITO (assinei Brito até 2006)
O esvaziamento de mágoa já havia se feito, uns lapsos de tempo me acometiam, minha memória havia apagado uns dados desnecessários talvez. Reencontrei Belchior um dia no Dragão do Mar e nos falamos amistosamente e nada me lembrou os prejuízos que vivenciei no período em que nos aproximamos. Nada tinha mais importância porque de fato eu nunca acreditei que tivesse sido ele o responsável pela grande farsa que nos envolveu, ele não necessitava de mim, de meu trabalho, de meu nome, de nada meu; o que ele fez foi por querer, por crer, por desejar e se tudo deu errado não foi por ele; outras pessoas e fatos aconteceram na vida dele e tudo desandou...seu ânimo afinal foi noticiado por todas as emissoras de TV construindo uma imagem rodeada de mistério.
Nada fiz para buscá-lo depois disso, nunca o processei, nunca mais falei no assunto. Sua morte me causou uma dor estranha, uma dor na cabeça, como se minha memória me pedisse para ser lavada e é isso o que faço com esse depoimento...Dizer à todos e à mim mesmo que sobrevivi, como tenho feito sempre à cada evento intempestivo, à cada tentativa de me fazer obsoleto em meu trabalho e minha história. Acreditem, há quem deseje e faça isso!! Como trabalho sem amarras e minas inseguranças profissionais quase não existem frustram-se essas tentativas.
Não penso que tenha vivenciado o perdão nesse episódio, se me fez atrasar um processo profissional em igual proporção me fez redimensionar meu pensar e eu cresci com tudo isso também, a vida foi sendo reconduzida, sobre outros pretextos e me tornei um produtor de shows temáticos reconhecido pelo mérito das montagens e homenagens apropriadas.
Sou Marcus Caffé há 10 anos, sou Marcus cantor há 30 e em Julho serei um homem de 50 anos em pleno vigor e ascenção profissional!
Obrigado Deus!
O estúdio "Concord" que ficava em Moema e lá faríamos nosso trabalho, era do engenheiro de som Santiago, aquele que trabalhava com Tim Maia, e tivemos pelo decorrer dos dias que já nem lembro quantos foram, a presença de músicos de peso como Oswaldinho do Acordeon, Paulinho Ferreira, Proveta, entre outros mais, sob a regência de Sérgio Sá.
Belchior foi nos visitar logo nos primeiros dias em que colocava voz. Adotei com Sérgio a dinâmica de ir aprovando de Fortaleza os arranjos que ele me mandava pelo correio em fitas k7 e assim eu já chegava com a interpretação encaminhada....
Em um dos dias saimos no finalzinho da tarde e ele me levou para conhecer seu ateliê que era ali do lado, mas fez questão de ir de carro...Uma casa de esquina, muro meio alto, um portão de madeira estreito que ao abrir apresentava uma pequena varanda sem nada de moveis e adornos porém lá dentro quadros nas paredes e chão. Conversamos sobre projetos, na verdade eu mais ouvi do que falei além do que o vinho já com pouco me deixara tonto pelo ritmo puxado e sem se alimentar no estúdio...Penso que tenha buscado um taxi num ponto que havia bem lá perto logo atrás e tenha ido rumo ao Sumarezinho conviver um pouco com meus anfitriôes, brincar com suas cadelas gasguitas, aguar plantas e dirigir um pouco em Sampa pra eles.
Na casa de Valentim tudo era alegria, risadas e de repente uma lembrança e um choro, mas logo retomava-se as piadas e o convívio era sempre iluminado...
Finalizada minha etapa de colocação de todas as vozes em todas as canções inclusive nas que foram escolhidas por Belchior comigo voltei para minha terra com uma idéia de que um grande projeto poderia estar em andamento e que eu estava imerso nele com aqueles caras famosos todos...
O disco não demorou à ser mixado e masterizado na cia dos técnicos que foi onde Belchior escolheu levá-lo, à partir da finalização da etapa de mixagem a masterização e o futuro seriam com ele.
Em Fortaleza fui dar conta da capa e conferir as informações sobre letras, autores, técnicos, registros, fotografias por Marize Rangel(SP) e Ricardo Damito(CE). A criação fora executada pela Advance Comunicação de propriedade de Eliziane Colares e seu marido e a supervisão de minha capa ficara por Paulo Amoreira.
Tudo resolvido e concluido enviei a midia para São Paulo e o resto foi por Belchior e sua empresa a Cameratti (Santo André)
PAUSA PARA PROXIMOS CAPITULOS:
Fui convidado por minha amiga irmã Karla Karenina para ajudá-la tecnicamente na produção de seu primeio CD Jóia de Jade, o que foi um prazer e uma honra pra mim. Moramos juntos por alguns meses em um momento muito produtivo de minha vida e eu me sentia merecedor de cada coisa daquelas.
Fomos ao Rio de Janeiro em 97 e ficamos hospedados durante uma semana aproximadamente no Hotel Barra Verde, na Barra da Tijuca. Esse hotel ficava colado à Polygran e também ao estúdio GPA de Gutti de Carvalho que produziu um monte de gente inclusive Elis Regina...
Trabalhava com Guti nosso conterrâneo musico e produtor Ricardo Bacelar...Logo na segunda noite de nossa chegada ao Rio Belchior chega me trazendo uma caixa com 25 unidades do meu filho...o Cd Matiz....rimos, brincamos e fomos comemorar no Barra Grill o projeto de Karla e o meu CD.
Dias depois e minha função já ter se exaurido voltei para Fortaleza com meu "filho" no braço...uma sensação de estranhamento e curiosidade sobre a aprovação das primeiras pessoas.
Em Fortaleza fui degustando as canções e a qualidade técnica de cada áudio e fiquei impressionado com tudo...o disco estava comercial e com conteúdo, dai fui rememorar a construção daquele repertório de Fátima Guedes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Belchior, Sergio Sá e Davi Duarte.
As rádio receberam bem, sem muito entusiasmo, somente a Universitária FM como rádio educativa e nossa casa de apoio institucional nos abraçou como sempre. Fora ela a Calypso FM (hoje Mucuripe FM 106.5)...
Os meses foram passando e a minha tiragem não chegava, pressentí que algo de errado estava acontecendo, o contrato que me chegou vindo da Cameratti (selo de distribuição) não trazia os termos que ajustamos então eu não assinei...nunca assinaria o que não acordei previamente. O contrato era a formalização de nossa relação, mas atribuia direitos de propriedade dos fonogramas à empresa e eles eram meus, pagos com os recursos do edital que eu vencera por meus esforços....
Uma série de situações mal resolvidas se sucederam..e eu inicio nesse momento uma fase que resisto em descrever... resisto muito!!!
Até que recebesse uma quantidade inicial e razoável de unidades do disco de titulo Matiz (em homenagem à composição de Davi Duarte) me sobrevieram muitos sentimentos negativos e para os quais não obtinha apaziguamento de ninguém da empresa, ninguém me atendia e os que atendiam não sabiam do que se tratava. Ednardo Nunes, sócio de Belchior era o responsável pelos contratos e como não estivera conosco nas resoluções pessoais resistia em alterar qualquer cláusula de um contrato pré estabelecido e com natureza de adesão....Dor de cabeça e decepção...até entrar em depressão.
- Professor....use a grife Professor!!
Me disse ele!(Belchior)
Nesse período uma onde de negatividades me acometeram abalando minha saúde física e mental...Certo dia toca o telefone e era Belchior, quem atendeu foi minha mãe que resistiu em me passar o telefone....enfim...era uma boa notícia...Bel me convidara para participar do lançamento de seu CD Vício Elegante, para isso eu iria à Sampa e me hospedaria no Lorena Flat e participaria das três noites de shows. Em cada uma delas outros convidados estavam presentes; Rubens Curim, Trovadores Urbanos e Vânia Bastos.
Foram dias intensos e cheios de boas vibrações, me mantive na cia de minha amiga Madalena Marmo e saimos muito juntos, ela me acompanhou à tudo inclusive ao jantar numa cantina no Bexiga depois do ultimo dia de show.
Sobre todas as incumbências referentes ao CD Matiz a energia fraquejou..e nada mais foi conduzido e em paralelo à isso a gravadora inciava um processo de falência, com isso, trabalhos de diversos artistas foram abandonados em suas divulgações e distribuições sob a total falta de comunicação de qualquer representante da empresa. Para mim, meu "protetor" era Belchior logicamente e ele largou tudo sem aviso, sem justificativa, sem apelo...
Fui à São Paulo, tinha que ir atrás de receber meu master e resolver a situação, levei algumas unidades do disco e na rádio "American Sat" fiz divulgações em diversos programas de rádio AM.
Me receberam entre outros Cristina Rocha e Leão Lobo com imensa curiosidade e um papo longo e afetuoso....demos carona à Leão Lobo ao final de nossa entrevista...tudo maravilhoso nesse momento, só que não!
Ao chegar à sede da Cameratti em Santo André e um tempo muito chuvoso me deparei com uma empresa largada....quase abandonada, quase nenhum funcionário, ninguém sabia de nada e nem me recebeu ou entregou meu master... Desespero bateu e comecei uma procura imbatível à Belchior telefonando para todos os números aos quais tive acesso e um deles ele atendeu, liguei de um orelhão em São Caetano e sem muito assunto ele me falou que estava saindo para viajar e não embro oq eu disse sobre nossa relação profissional...mas o que aconteceu depois foi pior. Saimos de São Caetano, eu Madá e Moacir com um sentimento muito triste....Descemos no escritório de Mada em uma das ruas que transversam a Avenida Paulista, na esquina quando iríamos atravessar quem encontramos? Belchior e Ednardo Nunes indo à uma entrevista na TV Gazeta...
Nessa noite tive uma crise nervosa na quitinete que alugamos na rua Martins Fontes, deitei no chão e tremia tanto que meu corpo perdia o contato com o piso....Oswanil, nosso saudoso amigo espirita, orou muito pelo sofrimento que se manifestava naquela minha reação.
Não lembro o que se passou nos dias seguintes, mas voltamos à Fortaleza e enfrentei dias de fúria de amigos que passaram pelo mesmo drama e desejavam uma explicação e um ressarcimento por seus prejuízos e etc...Eu engoli minha tristeza...e uma série de situações negativas aconteceram em minha vida pessoal que abalaram minha saúde, Adoeci...minha relação acabou...em minha familia problemas de saúde se manifestaram e se tornaram complexos...Efeito dominó!!!
Eu não quis mais ouvir falar no disco, neguei por muito tempo....e passei 11 anos sem gravar mais nada.
Me tornei praieiro como fora na adolescência, conheci um monte de gente da night, gente do dia, gente de cá, de lá e no auge da solteirice fui me sentindo fortalecer e algumas mudanças de práticas foram fundamentais como retomar minha vida de atleta, voltei à academia e durante mais de uma ano treinei todos os dias e fiquei enorme de forte. Estar fisicamente forte induz à atitudes mais acertivas e à pesar-se fortalecido. Minha auto estima estava retomada...e fui me preparando para mostrar o que mudara dentro por dentro também.
Quando as luzes de esperança na vida profissional começaram à ressurgir me vi novamente curioso sobre a musica brasileira de conteúdo e sem misoginias montei o show MARCUS MÚSICA BRASILEIRA BRITO (assinei Brito até 2006)
O esvaziamento de mágoa já havia se feito, uns lapsos de tempo me acometiam, minha memória havia apagado uns dados desnecessários talvez. Reencontrei Belchior um dia no Dragão do Mar e nos falamos amistosamente e nada me lembrou os prejuízos que vivenciei no período em que nos aproximamos. Nada tinha mais importância porque de fato eu nunca acreditei que tivesse sido ele o responsável pela grande farsa que nos envolveu, ele não necessitava de mim, de meu trabalho, de meu nome, de nada meu; o que ele fez foi por querer, por crer, por desejar e se tudo deu errado não foi por ele; outras pessoas e fatos aconteceram na vida dele e tudo desandou...seu ânimo afinal foi noticiado por todas as emissoras de TV construindo uma imagem rodeada de mistério.
Nada fiz para buscá-lo depois disso, nunca o processei, nunca mais falei no assunto. Sua morte me causou uma dor estranha, uma dor na cabeça, como se minha memória me pedisse para ser lavada e é isso o que faço com esse depoimento...Dizer à todos e à mim mesmo que sobrevivi, como tenho feito sempre à cada evento intempestivo, à cada tentativa de me fazer obsoleto em meu trabalho e minha história. Acreditem, há quem deseje e faça isso!! Como trabalho sem amarras e minas inseguranças profissionais quase não existem frustram-se essas tentativas.
Não penso que tenha vivenciado o perdão nesse episódio, se me fez atrasar um processo profissional em igual proporção me fez redimensionar meu pensar e eu cresci com tudo isso também, a vida foi sendo reconduzida, sobre outros pretextos e me tornei um produtor de shows temáticos reconhecido pelo mérito das montagens e homenagens apropriadas.
Sou Marcus Caffé há 10 anos, sou Marcus cantor há 30 e em Julho serei um homem de 50 anos em pleno vigor e ascenção profissional!
Obrigado Deus!
foto: Airton Conde.










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