A luz do Cabaré já se apagou em mim! (Marcus Caffé)

Fortaleza, 29 de Maio de 2020.

Últimos dias de nosso primeiro lockdown.

Evaldo Gouveia, o trovador se foi. Cansado, minado por tantas fragilidades que se somaram pelo decorrer de 91 anos...e quem sabe, não estivéssemos sob à égide de uma varredura viral que tem nos levado às centenas, quem sabe do alto de sua exemplar resistência ele conseguisse passar também por essa outra prova.
Não deu.

Nasci e cresci no centro de Fortaleza mas precisamente a rua da Assunção, uma casa simples, estreita, um vagão de trem profundo como dizia mamãe...Pra mim era um Castelo...nele estavam todos os personagens de minha fábula familiar. Com o tempo, pouco tempo por sinal, tudo isso se desfez mas essa seria uma outra história.

Cresci ajudando minha mãe nos afazeres domésticos que demandassem força, ou seja, fui alinhador de telhado, varredor de folhas das plantas do quintal, moedor de carne e também prestava serviços de homeboy efetuando todas as pequenas compras desde a época do caderninho (que nunca utilizávamos).

Era "vivo e morto" na budega do Sr. Amaurílio cuja  familia administrava com ele. Daquelas familias onde há um padrão genético envelhece facilmente...sabe? Pois bem....logo já nem se sabia quem era filho de quem.

Também nos tornamos fregueses do Lojão Buá , um outro senhor porém muito simpático e falastrão e que também trazia a familia para o balcão com ele. Cada um desses personagens sob minha visão daria um outro textinho rs

Voltando à minha rotina familiar estudei sempre relativamente perto de casa, esse era um dos requisitos para mamãe...papai pulou fora do barco cedo demais...
Porém cresci alimentado por música, desenho animado, dança. Com o tempo entendi que tudo isso habitava a minha ilusão, o meu mundo idealizado. Alguns ítens existiam de fato, mas eu era um menino encantado e encantador.

Papai, enquanto conosco viveu quase que num mundo paralelo, ouvia muito os compositores da musica mundial à partir do romantismo, rolava umas orquestras de tremer as paredes literalmente. Como técnico de telecomunicação ele lidava muito bem com a construção de alguns equipamentos de transmissão e os valvulados eram sua fixação.
Mamãe ouvia também, mas porque era o jeito. De seu gosto pessoal me eduquei ouvindo Dick Farney, Silvia Telles, Vilma Bentwegna, Moacir Franco, Dalva de Oliveira, Maysa, etc. Por essas audições um dia me chegou na voz da sapoti o Tango pra Tereza.
Por algumas icógnitas sobre quem era minha mãe (tenho a impressão de que há uma história que ninguém me contou, sabe?) penso que mamãe tenha querido ser cantora, uma atriz talvez. Ela era tão linda! Descobri que essa dramaticidade agradava à ela, então agradou à mim também.
Já havia estreado em programas de TV aos 4 anos de idade. Chamava-se Clube de Heróis pela TV Tupi Canal 2 e era patrocinado pelas Fábricas Fortaleza. Não ganhei o premio, mas sai de lá com uns biscoitos que entregavam a quem participava. Engraçado que lembrei agora, há 4 anos atrás cheguei em casa com um cesto de biscoitos ganhos em um outro programa rsrsr
Os anos se passaram e eu adentrei ao universo da musica em meu estado e cheguei como um bom destaque. A obra de Evaldo Gouveia, na verdade o Tango se tornou uma referência de tempo pra mim.

Morei de 1990 à 19992 em São Paulo e um dia fui acompanhar meu guitarrista Renato Consorte até uma boate para um assunto profissional dele. Lá fui apresentado muito rapidamente à Evaldo que mal me cumprimentou, já era tarde, devia estar cansado, ele era dono do lugar chamado Sunflash.

Retornei ao Ceará em junho de 1992 vim pela Festa do Pau da Bandeira de Barbalha e fiquei.

Em 2010 aproximadamente fui convidado por um amigo compositor e produtor chamado Eudes Fraga à participar do show de 50 anos de carreira de Evaldo (eu acho) e foi assim que de fato nos conhecemos. Ele estava andando com dificuldade e havia perdido um tanto de visão. Pelo costume em oferecer meu braço à meu pai, que pelo passar dos anos tanto se fragilizou igualmente, foi assim que eu me coloquei diante dele e ele aceitou. Saimos assim pelo ensaio no estúdio Santa Música e assim foi também no Theatro José de Alencar onde se deu a homenagem... ele só me chamava de meu filho!
Em 2011 participei do Carnaval de Fortaleza em sua homenagem e junto ao show lançamos um CD com obras de Evaldo gravado em 2010.
Circulei pelas unidades SESC com um show em sua homenagem.
Participei como seu convidado da gravação de seu DVD sob direção de Pantico Rocha e foi mágico.

Adeus Evaldo, adeus!






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